Sou contra projetos de autoritarismo do bem, como Sleeping Giants

Quando o conteúdo é louvável, poucos analisam o contexto, inclusive a imprensa. Acabamos combatendo autoritarismo com autoritarismo e desinformação com desinformação.

Vira e mexe digo que só dou dicas sobre erros que já cometi e um deles foi com o Sleeping Giants, algo muito pop no Brasil, mas que me encantou no modelo norte-americano, até hoje desconhecido do grande público.

Eu estava engatinhando no conhecimento sobre redes sociais, mas achava que sabia muito. Ou seja, não sabia o suficiente para questionar meu conhecimento a partir de dados que a realidade esfregava na minha cara.

O episódio Sleeping Giants foi um chacoalhão para mim. Só me liguei no meu terraplanismo em Cidadania Digital quando algo que eu achava muito legal resolveu me fazer de alvo para energizar seus seguidores. Eu estava diante da mesma mecânica que combatia nas milícias digitais, mas com uma justificativa moral aceita pelos meus pares, os jornalistas. Até eu aceitei, assumo.

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Resolvi voltar nesse tema não por causa do Sleeping Giants, mas por causa dos xingamentos do presidente da República contra mulheres jornalistas durante a semana.

Muita gente fica indignada, mas eu explico no vídeo acima por que a estratégia de atacar mulheres jornalistas sempre compensa para político. Compensaria menos se nós, jornalistas, não apoiássemos a utilização de tal estratégia quando nos parece bem intencionada. Ainda não é o caso, continuará acontecendo.

Como eu repito em quase todas as aulas do curso CIDADANIA DIGITAL, redes sociais não são conteúdo, são contexto. Minha análise do contexto era mal informada e enviesada, por isso concluía que ajudar a desmonetizar conteúdo de produtores de desinformação era um grande serviço de utilidade pública.

Eu estava ainda construindo meu conhecimento sobre redes, então mantinha essa visão despida de senso de autopreservação, predominante ainda hoje no jornalismo brasileiro. Aprender mais sobre comportamento humano ajudou a driblar os efeitos do Realismo Ingênuo, tema de outra edição da newsletter.

Desde 2015 sou sistematicamente atacada e difamada pelo mesmo grupo. No início nem sabia que eram um grupo, fui descobrindo à medida em que investigava para saber se as ameaças de morte contra o meu filho eram críveis ou só para me aterrorizar.

Até esse ponto da ameaça, em 2019, eu ainda acreditava que a desumanização e a alegria diante de violência eram características de um único grupo. Descobri do jeito mais duro que isso contamina e não tem ideologia política. Quanto meu filho foi ameaçado de morte, vários progressistas e antifascistas comemoraram abertamente. Imaginavam que eu era bolsonarista, então estava certo.

Grupos e indivíduos que têm esse comportamento imaginam ser o oposto do bolsonarismo ou do olavismo. Na verdade, são a justificativa. Embora usem argumentos diferentes para desculpar o exercício da perversidade, agem da mesma forma. Um grupo só vê esse tipo de atitude no outro, já que discorda da justificativa moral usada pelos adversários para cometer atrocidades. Ocorre que nenhum discorda das atrocidades.

Quando vi o Sleeping Giants desmonetizando os sites daqueles que sistematicamente me atacaram em grupo durante os últimos 6 anos, obviamente bateu o schadenfreude, conceito que eu exploro neste vídeo:

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Não vou mentir, admito que fiquei felicíssima ao imaginar que avisar empresas sobre patrocínio involuntário a promotores de desinformação fosse secar a fonte que os abastece. Dessa vez, eu precisei apanhar para entender que estava ajudando a fomentar caos e violência.

Ao longo dos últimos 6 anos sofrendo ataques, acompanhei como o poder de interferir na vida dos outros e mobilizar grupos enormes muda personalidades. O poder inebria e corrompe. Testemunhei diversos casos de pessoas bem intencionadas que ficaram viciadas na sensação de atingir alguém que imaginam ser poderoso.

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Poder inebria e corrompe. Tendemos a subestimar a força na alma humana do poder e também a capacidade de manipulação das redes sociais. Como o grupo errado é sempre o outro, jamais o nosso, aceitamos justificativas morais para o injustificável, afinal, é por um bem maior. Depois do ataque feito, quem incentiva banca o sonso. Não queria ofender, não mandou ninguém atacar, conheço bem o repertório, aprendi com os bolsomínions.

Na história do Sleeping Giants, temos a normalização de abusos contra mulheres jornalistas seguidos de desculpas esfarrapadas. Some-se a isso o terraplanismo jornalístico ao falar de redes sociais, desinformando o público sobre a monetização de sites de fake news, inventando que perdem receita quando atacados. Um relatório da Polícia Federal mostra que a receita aumentou.

Cria-se um cenário em que mentir sobre fatos e atacar mulheres é normal. Os jornalistas incensam pessoas que fazem isso e veiculam as mentiras que essas pessoas contam sem um mínimo de checagem. Quando os radicais ideologicamente opostos ao jornalismo fazem exatamente a mesma coisa, os jornalistas reclamam. O público não se comove, vê como hipocrisia e corporativismo.

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Estava uma noite cuidando do meu filho, que tinha pesadelos por causa da pandemia. Havia sido um dia particularmente difícil aquele. Entrei no twitter meio que no piloto automático e já havia várias menções me xingando. Fui ver a origem. Era uma postagem do Sleeping Giants sobre mim!!!

Durante aquele dia, um colega com quem já tive inúmeros desentendimentos, fez uma postagem em seu canal pessoal de YouTube. Se o Sleeping Giants “desmonetiza” sites (logo adiante explico por que isso é mentira, repassada a você por boa parte da imprensa), deveria ser uma campanha para desmonetizar o canal dele, certo? Errado.

Naquele caso específico, resolveram pedir a todos os empregadores dele que o demitissem pela postagem. A Jovem Pan, de onde pedi demissão após assédio sexual e 6 meses de assédio moral pela minha recusa, demitiu. Abaixada a poeira, recontratou.

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Lembro que, naquele momento, caí em mim. O Sleeping Giants estava elogiando a Jovem Pan, de onde eu pedi demissão por assédio, pela postura contra abuso sexual. A postagem em que me marcaram era para que pedisse que meus chefes na Gazeta do Povo fizessem como a Jovem Pan. Na entrevista abaixo, explico como foi minha experiência com o assédio.

Para mim, era uma distopia completa. Como alguém combate assédio sexual elogiando quem acoberta e atacando quem acolhe uma sobrevivente que reagiu? Eu sei bem o que passei para arrumar emprego depois que denunciei publicamente. Postei uma resposta sobre isso e o Sleeping Giants simplesmente apagou o post, o que não interrompeu os ataques dos seguidores deles contra mim.

Inicialmente, fui ignorada pelo perfil Sleeping Giants, que era anônimo. Exatamente igual ao que faziam as milícias bolsonaristas. Entrei em contato com uma amiga que os conhecia e ela explicou que os seguidores deles estavam me atacando. Eles prometeram resolver. Fizeram uma postagem sonsa, respondendo ao meu post - para falar aos meus seguidores, mas não aos deles. Era um Vale a Pena Ver de Novo de 2017, quando um lobista de armas fez exatamente o mesmo comigo e reagiu igualzinho depois que Carla Zambelli interveio por telefone.

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Na primeira vez em que aconteceu isso, com o lobista de armas, eu imaginava ser possível conversar ou ignorar. Grande erro que não repeti. Enfrentei. Cobrei coerência. No final das contas, mais pessoas cancelaram assinaturas do jornal por minha causa e reclamaram de mim do que do alvo inicial do Sleeping Giants.

Fui colocada numa posição de ser atacada pelos seguidores deles por não rechaçar publicamente meus chefes e também de ser atacada pelos detratores deles por não dar apoio às declarações do meu colega.

Já passei por uma grande campanha pedindo dessassinaturas e boicotes à Gazeta do Povo até que eu fosse demitida. Foi promovida pelo Escola sem Partido, que nem existe mais e cujo líder tem ótimas relações com vários dos meus colegas. Houve um silêncio conivente que me recusei a repetir mesmo que o caso envolvesse quem silenciou à época.

Share Cidadania Digital, por Madeleine Lacsko

Precisamos aprender a diferenciar o certo do errado. É certo pedir a demissão de uma pessoa por algo que ela disse em suas redes pessoais? É certo juntar uma horda virtual para constranger pessoas a dizer o que você quer? É certo reagir de forma sonsa a quem não se agacha diante do bullying? Ou é tanto para a milícia bolsonarista quanto para o Sleeping Giants ou não é para os dois. A justificativa moral dos grupos é diferente, funciona para seu público específico. O método é igual.

Somente um jornalista - isso mesmo UM ÚNICO - disse publicamente considerar errado que eu virasse alvo naquela história. Foi Carlo Cauti, italiano, que hoje trabalha na Suno Research e presidia a Associação de Correspondentes Estrangeiros no Brasil. Agradeço demais a força, que foi significativa. Não foi possível falar em nome da associação - os demais colegas não quiseram - mas ele falou como jornalista e cidadão.

Depois, um casal disse ser o dono do perfil Sleeping Giants e mentiu sobre mim em diversas entrevistas. Nunca foram contestados pelos meus colegas. A primeira mentira é que estariam marcando todas as colunistas do jornal e só eu reclamei. Marcaram a empresária e shark tank Camila Farani e eu.

A segunda mentira, copiada com exatidão ao que propagam as milícias bolsonaristas, é a de que jamais incentivaram ataques contra mim e isso está muito claro. É a política do sonso. Não disseram abertamente mas, se fossem contrários, não teriam aproveitado o engajamento de ataques que ocorrem até hoje.

Nesse imbloglio, os jornalistas querem marcar posição contra a desinformação. Movidos pelo schadenfreude, acreditam na mentira barata de que o Sleeping Giants desmonetizou espalhadores de Fake News. O relatório do Atlantic Council para a Polícia Federal mostra que foi o contrário. Todos os alvos do Sleeping Giants cresceram após os ataques. Engajamento faz crescer, pouco importa se bom ou ruim.

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É a recompensa que as redes sociais dão a quem consegue formar grupos fiéis que agem de forma visceral, qualquer que seja a ideologia que usem para justificar ataques. O Sleeping Giants mira empresas que seriam as culpadas por monetizar desinformação. Ocorre que a culpa não é das empresas que são expostas e atacadas por eles, é das plataformas de redes sociais que fizeram o perfil famoso.

Se perfis que desinformam ganham alcance e recebem publicidade, é porque as redes sociais decidiram isso por meio do algoritmo. O algoritmo é a ordem dada às máquinas. No caso, ninguém sabe exatamente qual a ordem, mas é ela a responsável por ódio e desinformação serem propagados e receberem patrocínio.

Não há como uma empresa escolher onde quer colocar seu investimento em redes. Ela coloca o investimento e tem de sair bloqueando um por um os perfis nos quais não quer investir. Em tese, esses perfis nem deveriam estar ali ou, se estivessem, não deveriam ser aptos a receber patrocínio por violar regras das redes sociais.

As redes sociais criam as regras, dizem que violações limitarão patrocínio mas atuam à revelia das próprias regras. Não só decidem dar um alcance fantástico aos perfis que violam suas regras como também decidem direcionar patrocínio para eles. E quem paga o pato é a marca que foi enganada? Sim, desde que outro perfil que mobiliza pela oposição e ataque em enxame seja viabilizado.

Ao usar terraplanismo digital para tratar de desinformação, o jornalismo desinforma. Já há um relatório da Polícia Federal mostrando que a única ação que atrapalhou perfis que desinformam foi a exigência de CPF para doações e recebimento de dinheiro na plataforma Apoia.se. Isso ocorreu por influência do advogado Claudio Castello, que você nunca viu mencionado em reportagem sobre desinformação.

Numa ação que ele moveu contra perfis anônimos, acabou sendo procurado pela diretoria da plataforma Apoia.se. Queriam esclarecimentos sobre uma alegação dele pois temiam que houvesse brecha na plataforma para lavagem de dinheiro. Após a conversa - um fato que revelo a você em primeira mão - a plataforma tomou providências muito rápido.

Dias depois, quando eu fui sacar dinheiro dos meus apoios na plataforma Apoia.se, a retirada só passou a ser possível com um processo de identificação igual ao dos bancos digitais. Doações também exigem registro de
CPF. Há conversas específicas no relatório da Polícia Federal sobre como isso atrapalhou a vida financeira de diversos desinformadores.

Dou toda essa volta para explicar a você as razões pela qual tanta gente que parece normal faz vista grossa diante do comportamento de bordel de beira de estrada do presidente da República. Eles têm uma justificativa moral. O presidente só xinga mulheres porque a imprensa o persegue de maneira desmedida.

Se você não é bolsonarista, parece revoltante a justificativa. No grupo bolsonarista não é e tem ainda mais um ponto, a ideia de que a imprensa “tem lado”. Nesse grupo, é muito nítido que não há nenhuma reação de jornalistas ou associações de jornalistas quando o ataque a uma jornalista é feito por algum anti-bolsonarista. E não há mesmo, infelizmente.

Não pense que o mundo está perdido se você chegou até aqui. Você, pelo menos, fez duas coisas muito importantes lendo essa newsletter:
1. Repensou a conveniência de agir impulsionado por “schadenfreude”, aquela sensação deliciosa de quando o inimigo da gente se dá mal.
2. Vai pensar diferente quando for convidado a participar de estratégias de ataques coletivos via redes sociais em nome de um bem maior.

Dizem que o inferno está cheio de boas intenções. Na Cidadania Digital, boas intenções sem eficiência de ação tornam nossas vidas um inferno. O psicólogo Jonathan Haidt costuma dizer que a coisa mais valiosa que ele aprendeu é: todo perverso encontrará uma justificativa moral para sua perversidade e um grupo que a corrobore.

Cada um de nós já foi, em algum momento, em maior ou menor medida, o perverso, o alvo dele ou a platéia de sonsos que justificam perversidade. Pensamos no conteúdo, a ideia perigosa que não pode ser espalhada, o adversário que precisa ser combatido. Não pensamos no contexto, o fato de que a forma como agimos naturaliza aquela forma de agir para todos os que convivem conosco.

Focamos o avanço digital em conhecer sobre máquinas e sobre evolução. Mas tem um desafio ainda maior, o autoconhecimento. Todos temos o bem e o mal dentro de nós, ao mesmo tempo e às vezes misturado. É uma disciplina no mundo hiperconectado viver de acordo com os próprios valores em vez de mimetizar o comportamento daqueles que odiamos.

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Espero que essa newsletter traga a você novas reflexões. Não importa se considera meu posicionamento certo ou errado, é direito seu. Quis ser sincera sobre os fatos para que você pense situações pelas quais também passou. A Cidadania Digital é um aprendizado diário.